jan 09 2010

À moda antiga

Pasteizinhos

Quando me sujeitei a montar esta coluna, havia prometido dar dicas de tudo q era interessante na cidade, não importando se era restaurante chique ou isoporzinho arrumado. Até agora, só falei dos estabelecimentos formais — apesar daquele post sobre a culinária de baixa gastronomia, referindo-me a empada do Alfredo em São Francisco. No entanto, fiquei sabendo do Alfredo pela Revista d’O Globo, e não através das minhas andanças.

Eu moro em Icaraí. Acho que é fácil perceber isso pelos posts, que infelizmente relacionam mais os lugares interessantes de Icaraí do que outros bairros. Pretendo ser menos bairrista, mas é que é tão mais fácil pra mim… Vocês entendem, né?

Eu passo quase todo dia pelo Campo de São Bento. Gosto daquele lugar: lembra a minha infância, os meus passeios de bicicleta, o bate-bate e o algodão-doce. Lembra os estalinhos, as bolas metálicas de hélio, barulho de criança sendo feliz.

Uma das marcas da minha infância foi o “pastel com caldo-de-cana”. Meu padrinho é campista, e na tradição dele, “pastel com caldo-de-cana” é como o BigMac com Coca-Cola para muita gente aqui em Icaraí. Urbanóides autênticos, o chique é o que vem de fora e nem se ligam para como é gostoso uma comidinha, uns quitutes mais tradicionais. Meu padrinho ainda mora na Região Oceânica, e quando eu não estava passando meu final de semana no bate-bate do Campo de São Bento, eu estava brincando pelo mato lá em Itaipu. No fim da tarde, o único (único mesmo!) programa que tinha era tomar um caldo de cana comendo um pastel de carne no Fla-Flu (quando ainda era perto do trevo de Piratininga). Fora isso, o que me lembra mais a Região Oceânica é o picolé do China (aquele que só de sair do isopor do vendedor já estava pingando e derretendo).

O Campo de São Bento ainda tem o bate-bate. Ainda tem aquele barulho de criança brincando. Ainda tem o baleiro, vendendo aqueles picolés de caramelo em formato de chupeta, com aquele “instrumento” barulhendo nas mãos para chamar atenção (o que funciona perfeitamente para mim ainda). Mas algumas coisas mudaram, e para melhor.

No Campo de São Bento, próximo ao portão de entrada pela Gavião Peixoto, tem uma barraquinha verde. Ali está o Seu Amadeu, vendendo o seu pastelzinho e o caldo de cana numa máquina… mais moderninha do que a do meu tempo de criança. Mas fora isso, tudo lá é à moda antiga: o caldo-de-cana é docinho e bem gelado; o pastel é uma delícia e sequinho; o óleo do pastel é limpo (coisa que não se pode dizer de um bocado dessas pastelarias ching-ling da vida); e principalmente, o atendimento, com um sorriso sempre acolhedor do Seu Amadeu. Ele faz pastel de tudo que é tipo, mas eu experimentei o de “pizza” (queijo, tomate e oregano) e posso dizer que é DIVINO! Eu poderia dizer mais sobre o pastel, mas não faz sentido. Apesar de ser um pastel maravilhoso, para imaginar como é o pastel do Seu Amadeu é só resgatar na memória as boas e decentes pastelarias que tínhamos em Niterói, e é exatamente esse sabor e qualidade que o Seu Amadeu reproduz naquela barraquinha verde. Mas uma coisa que nenhuma das atuais pastelarias consegue reproduzir é o carinho e a atenção que o Seu Amadeu dá a cada cliente. O problema é que a barraquinha é pequena, e o Seu Amadeu até tem uma ajudante (que mais falta do que vai), e assim, é preciso um pouco de paciência para conseguir o seu pedacinho frito de infância. Mas é só chegar lá, prosear um cadinho e logo-logo fica pronto (o segredo é a conversa boa e o óleo novo, que frita mais rápido). Abaixo, minhas impressões sobre o pastel do Seu Amadeu:

PASTEL DO SEU AMADEU

Campo de São Bento – Portão da Gavião Peixoto

Funciona finais de semana e feriado (não sei exatamente horários nem outros dias, mas sei que nos finais de semana e feriado a barraquinha está fritando suas delícias)

  • NOTA GERAL: 5,0/5,0 (As demais notas não somam, nem são calculadas exatamente por fórmulas para chegar neste valor. Esta nota é um valor abstrato.)
  • SERVIÇO: 5,0/5,0
  • CARDÁPIO: 5,0/5,0 (Tem pastel — vários sabores — e caldo-de-cana: é tudo que se pode esperar)
  • PREÇO: 4,0/5,0 (É mais caro que os pasteis ching-ling… mas compensa pelo sabor e qualidade)

OBS: Se você for no Campo de São Bento experimentar o pastel do Seu Amadeu, e depois quiser ir no bate-bate, me avise: estou à procura de alguém que queira relembrar esta parte da infância também. 🙂

* A imagem que ilustra este post é de Claudia_midori. Obrigado

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7 comentários

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  1. Nossa..rsr essa lembou mesmo “vendendo aqueles picolés de caramelo em formato de chupeta” rsr.. caramba..

  2. Olá Luciano! Parabéns pelo belo artigo. Em breve certamente irei experimentar os pastéis do “Seu Amadeu”. Obrigado pela dica! Nos dias de hoje, eu indicaria somente os pastéis de siri e de camarão do “Bar Caneco Gelado do Mário”, no centro de Niterói, famoso pelo seu tradicional e imbatível “bolinho de bacalhau”, e onde encontramos também muitos pratos deliciosos de peixes e frutos do mar.

    Com relação ao passado, não dá para deixar de mencionar a tradicional “Pastelaria Imbuí” (não estou certo de que se escrevia assim …rsrsrs), que ficava no primeiro quarteirão da Rua José Clemente, no centro da cidade. Era muito antiga e conhecida, e só vendia (e muito) o tradicional “pastel com caldo de cana”, mas infelizmente, foi fechada, se não me falha a memória, em meados ou final dos anos 90.

    Outra pastelaria que marcou época na cidade foi a “Panzeroto”, que no final dos anos 80 e início dos anos 90, tinha uma loja no primeiro quarteirão da Rua Lemos Cunha, pertinho do Campo de São Bento, e outra na Rua Moreira César, no quarteirão entre as Ruas Pereira da Silva e Presidente Backer (era ao lado do portão de entrada de uma pequena vila de casas que liga, só para pedestres, a Rua Moreira César à Praia de Icaraí). No início dos anos 90 conheci o Sr. Vitor, um italiano, que criou (ou pelo menos teve o mérito de lançar aqui na cidade) o “Panzeroto” (um grande e delicioso pastel que fez imenso sucesso na época). Ele tinha uma pequena pastelaria no centro da cidade, na Rua Coronel Gomes Machado, em frente as lojas de materiais de rádio, no quarteirão entre a Rua Barão do Amazonas (de fato, Rua Luiz Leopoldo Fernandes Pinheiro) e a Rua Visconde de Sepetiba. Acho que se chamava “Soficino”, ou este era o nome dos pastéis que ele vendia, juntamente com todo tipo de massas (lazanha, canelone, etc…). Ele já havia vendido (ou passado o ponto e a marca) as duas pastelarias “Panzeroto” e ficado apenas com essa pequena pastelaria no centro de Niterói, que era minúscula (não mais que três metros de largura), com um balcão paralelo a entrada, onde ele próprio atendia os clientes e passava os pedidos para duas ou três ajudantes que ficavam na cozinha logo atrás, por uma pequena abertura na parede, fechada por uma cortina. Apesar do espaço minúsculo, na hora do almoço aquilo ficava lotado, pois muita gente ia até lá para comprar uma mini-lazanha ou mini-canelone, etc, numa quentinha, para servir de almoço …rsrsrs. Naquele tempo não existiam ainda os restaurantes de comida à peso, e as opções de refeição no centro de Niterói não eram tão numerosas …rsrsrs. Em meados dos anos 90 a pastelaria do Sr. Vitor fechou. Por coincidência, anos depois, encontrei com ele na Barca, vindo do Rio para Niterói, e fiquei sabendo que ele havia voltado à morar na Itália, onde conseguiu se aposentar, por ter cidadania italiana. Mas todo ano ele costumava retornar à Niterói, pois a esposa dele, que é brasileira, não concordou em ir morar na Itália com ele, e continuou aqui em Niterói (bairro de Fátima).

    Bons tempos aqueles do Panzeroto!
    Um grande abraço e muito sucesso! Roberto, 06/06/10.

    • Gilbert Raposo on 03/07/2010 at 06:33
    • Responder

    Olá, tudo bem ?
    Tive minha infância no campo de S. Bento, e concluo que o que é bom permanece, parabéns pela idéia de divulgar um dos pontos de qualidade de nossa cidade, moro em Pendotiba atualmente, mas vou ao campo de S. Bento sempre, abraços.

  3. Me mudei recentemente para Nikiti(kkkk). Curiosamente achei esse site.Moro próxima ao Campo, tb. Como não conheço nada aqui, suas dicas tem sido de gde valor.
    Irei comer pastel lá qualquer dia.

  4. Olá
    Sou de Niterói, mas moro em Salvador/BA e gostaria de saber se alguém conhece aquele pastel “sorriso” que havia no centro da cidade. Estou indo ao Rio em setembro e gostaria de comer o pastel e relembrar os tempos de infância…

  5. Não dá para deixar de falar do “sorriso” do Pei King, a primeira pastelaria chinesa que apareceu e que lançou o pastel “sorriso”. Ela ainde existe e fica no centro de Niterói, na Rua Aurelino Leal, em frente ao antigo prédio dos Correios.

    1. Essa pastelaria também existe até hoje em Icaraí, Rua Pereira da Silva entre a Gavião Peixoto e a Tavares de Macedo.

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