{"id":1060,"date":"2012-12-04T16:40:56","date_gmt":"2012-12-04T18:40:56","guid":{"rendered":"http:\/\/confrariadabirita.com.br\/?p=1060"},"modified":"2020-09-07T16:15:57","modified_gmt":"2020-09-07T19:15:57","slug":"historia-do-alcool","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/historia-do-alcool.html","title":{"rendered":"Dez mil anos de pileque &#8211; a hist\u00f3ria do \u00e1lcool"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">por <strong>Bruno Garattoni<\/strong><br>(Super Interessante &#8211; setembro\/2008)<\/p>\n\n\n\n<p>De uns tempos para c\u00e1, a <strong>bebida alco\u00f3lica<\/strong> virou a grande vil\u00e3 da sociedade. Vicia, engorda, causa acidentes de tr\u00e2nsito. No mundo moderno, o \u00e1lcool \u00e9 meio malvisto. S\u00f3 que nossos antepassados n\u00e3o pensavam assim: <strong>todo mundo enchia a cara<\/strong> (em alguns casos, at\u00e9 as crian\u00e7as), em quantidades chocantes para os padr\u00f5es atuais \u2013 <span style=\"text-decoration: underline;\">no s\u00e9culo 19, as pessoas bebiam o dobro de hoje<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais surpreendente ainda \u00e9 descobrir que esse porre hist\u00f3rico teve um papel fundamental: ajudou a humanidade a superar epidemias, desbravar o planeta, construir imp\u00e9rios, vencer guerras, organizar sociedades democr\u00e1ticas e inventar tecnologias essenciais para o dia-a-dia de todo mundo. As pir\u00e2mides do Egito, as Grandes Navega\u00e7\u00f5es, os EUA, o feminismo, o leite em caixinha&#8230; sem bebida, essas coisas n\u00e3o existiriam (ou seriam muito diferentes). Afinal, o pileque \u00e9 intr\u00ednseco ao ser humano: das frutinhas fermentadas que os primatas ingeriam aos \u00faltimos avan\u00e7os da qu\u00edmica org\u00e2nica \u2013 como o \u00e1lcool que n\u00e3o d\u00e1 ressaca \u2013, a evolu\u00e7\u00e3o e a birita andam de&nbsp;m\u00e3os dadas. Trocando as pernas, cambaleando e trope\u00e7ando de vez em quando. Mas sempre juntas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Cerveja-Sumeria.jpg\" rel=\"lightbox-0\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"465\" src=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Cerveja-Sumeria-700x465.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1699\" srcset=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Cerveja-Sumeria-700x465.jpg 700w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Cerveja-Sumeria-350x233.jpg 350w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Cerveja-Sumeria-768x511.jpg 768w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Cerveja-Sumeria.jpg 910w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">8000 A.C &#8211; O in\u00edcio<\/h2>\n\n\n\n<p>Um belo dia, algu\u00e9m descobriu que era poss\u00edvel reaproveitar as sementes das plantas para fazer novas plantas. Nascia a agricultura, e com ela a bebida. <span style=\"text-decoration: underline;\">A primeira po\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica foi preparada na China, por volta do ano 8000 a.C.<\/span> A an\u00e1lise de jarros encontrados em <em>Jiahu<\/em>, no norte do pa\u00eds, mostrou que eles continham um drinque feito de arroz, mel, uvas e um tipo de cereja, tudo fermentado. N\u00e3o se sabe exatamente a gradua\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica dessa po\u00e7\u00e3o, mas uma experi\u00eancia revelou pistas. \u201cFica entre a cerveja e o vinho\u201d, revela o arque\u00f3logo e qu\u00edmico <em>Patrick McGovern<\/em>, da Universidade da Pensilv\u00e2nia, que reproduziu a receita em laborat\u00f3rio e achou o resultado um pouco amargo.<\/p>\n\n\n\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o dos <strong>sum\u00e9rios<\/strong> (na conflu\u00eancia dos rios Tigre e Eufrates, atual Iraque) aperfei\u00e7oou a f\u00f3rmula e criou 19 tipos de bebida alco\u00f3lica \u2013 16 deles \u00e0 base de trigo e cevada. <strong>Estava criada a cerveja<\/strong>. <span style=\"text-decoration: underline;\">Era uma bebida de elite, que os aristocratas sum\u00e9rios bebiam com canudinhos de ouro<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas logo chegaria ao pov\u00e3o. Cada um dos trabalhadores que&nbsp;constru\u00edram as pir\u00e2mides de <em>Giz\u00e9<\/em>, no Egito, ganhava <strong>5 litros de cerveja por dia<\/strong>. <span style=\"text-decoration: underline;\">Ela era considerada \u201cp\u00e3o l\u00edquido\u201d<\/span>, um alimento fundamental para que os oper\u00e1rios aguentassem uma jornada puxad\u00edssima \u2013 e cujas propriedades embriagantes ajudavam a contentar a massa. 2500 anos antes de Cristo, encher a cara de cerveja j\u00e1 havia se tornado um h\u00e1bito comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso, a elite tenha come\u00e7ado a migrar para outro tipo de bebida alco\u00f3lica: o <strong>vinho<\/strong>. O rei <em>Tutanc\u00e2mon<\/em>, que morreu em 1300 a.C., foi sepultado com nada menos que 26 jarras de vinho, de 15 tipos diferentes, <span style=\"text-decoration: underline;\">para n\u00e3o passar vontade no al\u00e9m<\/span> (os eg\u00edpcios acreditavam em vida ap\u00f3s a morte).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E a mangua\u00e7a pegou!<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignright size-large\"><a href=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito.jpg\" rel=\"lightbox-1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"420\" src=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito-700x420.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1707\" srcset=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito-700x420.jpg 700w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito-350x210.jpg 350w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito-768x461.jpg 768w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito-1200x720.jpg 1200w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-ja-foi-usada-como-remedio-e-moeda-de-pagamento-no-antigo-egito.jpg 1300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cPor volta do ano 1000 a.C., o \u00e1lcool j\u00e1 era consumido por todas as civiliza\u00e7\u00f5es, da \u00c1frica \u00e0 \u00c1sia\u201d, afirma o ingl\u00eas <em>Iain Gately<\/em> em seu livro <em>Drink: A Cultural History of Alcohol<\/em> (\u201cDrinque: Uma Hist\u00f3ria Cultural do \u00c1lcool\u201d, sem vers\u00e3o em portugu\u00eas). Os gregos cultivavam nada menos que 60 variedades de vinho, e at\u00e9 chegaram a inventar um&nbsp;jogo baseado nele. Era o <strong>kottabos<\/strong>, que consistia em despejar numa vasilha o restinho de bebida que sobrasse no copo. Se o l\u00edquido n\u00e3o estalasse ao bater na vasilha, isso significava que <strong>Afrodite<\/strong>, a deusa do amor, estava de mal com o pingu\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Roma, o vinho adquiriu relev\u00e2ncia geopol\u00edtica. Ele passou a ser produzido em grande escala, pois sua exporta\u00e7\u00e3o era vital para manter a estabilidade nas prov\u00edncias do imp\u00e9rio. E os soldados romanos, que levavam a bebida para desinfetar a \u00e1gua dos lugares por onde passavam, logo descobriram outra grande utilidade do \u00e1lcool: ele podia servir como uma esp\u00e9cie de arma qu\u00edmica contra os inimigos. Quando chegavam a territ\u00f3rios que desejavam conquistar, <span style=\"text-decoration: underline;\">uma de suas estrat\u00e9gias era fingir amizade e dar vinho para os povos locais beberem<\/span>. No dia seguinte, quando as v\u00edtimas estavam acordando de <strong>ressaca<\/strong>, os romanos voltavam e faziam um massacre. \u201cSe voc\u00ea estimular que os inimigos bebam em excesso, e der a eles quanta bebida quiserem, ser\u00e1 mais f\u00e1cil derrot\u00e1-los\u201d, ensinou o historiador romano <em>T\u00e1cito<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Santo rem\u00e9dio<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas o \u00e1lcool n\u00e3o servia apenas para incapacitar as pessoas. <span style=\"text-decoration: underline;\">Ele tamb\u00e9m era considerado um rem\u00e9dio<\/span>. No s\u00e9culo 14, a peste negra se espalhava pela Europa, matando 90% das pessoas que infectava. Mas, quando a epidemia chegou \u00e0 cidade de <em>Oudenburg<\/em>, na B\u00e9lgica, o abade local <strong>proibiu o consumo de \u00e1gua<\/strong> e <span style=\"text-decoration: underline;\">obrigou os crist\u00e3os a beber s\u00f3 cerveja<\/span>. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, deu certo: muitos deles sobreviveram \u00e0 peste (pois a cerveja, gra\u00e7as ao \u00e1lcool, era menos contaminada que a \u00e1gua). <strong>O abade foi canonizado e virou o padroeiro da cerveja \u2013 santo Arnoldo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignright size-medium\"><a href=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool14.jpg\" rel=\"lightbox-2\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"350\" height=\"308\" src=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool14-350x308.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1706\" srcset=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool14-350x308.jpg 350w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool14-626x550.jpg 626w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool14-768x675.jpg 768w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool14.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Com o fim da epidemia, a Europa se recuperou e uma nova aventura come\u00e7ou a se delinear \u2013 as <strong>Grandes Navega\u00e7\u00f5es<\/strong>. Nelas, mais uma vez, <span style=\"text-decoration: underline;\">o \u00e1lcool teve um papel central<\/span>. A expedi\u00e7\u00e3o comandada pelo portugu\u00eas <em>Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es<\/em> conseguiu dar, pela primeira vez na hist\u00f3ria, uma volta completa no globo terrestre. Foi um enorme porre: <span style=\"text-decoration: underline;\">Magalh\u00e3es investiu mais em bebida do que em armas<\/span>, e sua esquadra de 5 navios carregava um gigantesco suprimento de vinho (cujo valor seria suficiente para comprar mais duas caravelas). J\u00e1 o navio <em>Arbella<\/em>, no qual os ingleses foram colonizar a Am\u00e9rica, levava inacredit\u00e1veis <span style=\"text-decoration: underline;\">40 mil litros de cerveja e 40 mil litros de vinho \u2013 contra apenas 12 mil litros de \u00e1gua<\/span> [<em>parece a propor\u00e7\u00e3o dos nossos churrascos, n\u00e9?<\/em>]. Nenhum navegador que se prezasse entrava no mar sem o \u201ctanque cheio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, <strong>a produ\u00e7\u00e3o de cacha\u00e7a foi proibida no Brasil<\/strong>, pois Portugal queria garantir o mercado local para seus vinhos. A\u00ed os senhores de engenho come\u00e7aram a exportar, clandestinamente, a bebida para Angola \u2013 onde era trocada por escravos. Os ingleses tamb\u00e9m faziam isso, e muito: entre 1680 e 1713, trocaram 5,2 milh\u00f5es de litros de bebida por 60 mil africanos (cada escravo valia 86 litros de rum, o que d\u00e1 R$ 850 em valores atuais).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela n\u00e3o foi s\u00f3 moeda de troca da escravid\u00e3o; tamb\u00e9m ajudou o Novo Mundo a se libertar. Em 1764, a Inglaterra restringiu o com\u00e9rcio de bebida alco\u00f3lica, que os colonos americanos importavam e exportavam em grande quantidade. Isso gerou uma insatisfa\u00e7\u00e3o que viria a explodir, 11 anos mais tarde, numa guerra. Liderados pelo general <em>George Washington<\/em>, que era dono de uma f\u00e1brica de u\u00edsque, os soldados americanos se embebedavam durante o combate \u2013 cada um tomava 1 litro de rum por dia. <span style=\"text-decoration: underline;\">Em 1776, a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia dos EUA foi escrita por <em>Thomas Jefferson<\/em> num bar<\/span> \u2013 e o primeiro a assin\u00e1-la foi um contrabandista de vinho, <em>John Hancock<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mulheres unidas pelo gor\u00f3<\/h2>\n\n\n\n<p>A <strong>Revolu\u00e7\u00e3o Industrial<\/strong> mudou completamente a fabrica\u00e7\u00e3o de bebidas: elas ficaram mais baratas e passaram a ser produzidas (e consumidas) em enorme quantidade. <span style=\"text-decoration: underline;\">Em 1830, cada americano entornava o equivalente a 10 litros de \u00e1lcool puro por ano<\/span>, n\u00edvel superior ao de hoje (8,5 litros). \u00c9 muita coisa: d\u00e1 250 litros de cerveja ou 90 de vinho. Foi a\u00ed que o alcoolismo, at\u00e9 ent\u00e3o apenas uma inconveni\u00eancia, passou a ser visto como doen\u00e7a s\u00e9ria \u2013 e surgiram as primeiras campanhas e associa\u00e7\u00f5es contra a bebida, que rapidamente conquistaram mais de 500 mil adeptos nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"alignright size-large\"><a href=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool2.jpg\" rel=\"lightbox-3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"462\" height=\"550\" src=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool2-462x550.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1705\" srcset=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool2-462x550.jpg 462w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool2-350x417.jpg 350w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/alcool2.jpg 672w\" sizes=\"auto, (max-width: 462px) 100vw, 462px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Alheio a tudo isso, na Fran\u00e7a, o qu\u00edmico <strong>Louis Pasteur<\/strong> estava prestes a fazer uma dos maiores inven\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria. Tentando entender a transforma\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar em \u00e1lcool, ele acabou descobrindo uma t\u00e9cnica revolucion\u00e1ria: a pasteuriza\u00e7\u00e3o, que hoje em dia \u00e9 usada na produ\u00e7\u00e3o de leite, iogurte, sorvete e sucos industrializados. Ou seja: se Pasteur n\u00e3o tivesse se metido a estudar o gor\u00f3 (ele publicou dois livros sobre a biologia do vinho e da cerveja), os alimentos do mundo moderno seriam bem diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo 20, os impostos sobre bebidas alco\u00f3licas eram respons\u00e1veis por mais de 50% da arrecada\u00e7\u00e3o do governo dos EUA. Mesmo assim o pa\u00eds decidiu instituir, em janeiro de 1920, a <strong>lei seca<\/strong> \u2013 e as pessoas migraram para bares clandestinos. Isso aumentou a criminalidade e fortaleceu as m\u00e1fias, mas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, teve uma consequ\u00eancia positiva: consolidou a igualdade de direitos entre os sexos e mostrou a for\u00e7a dos movimentos feministas. \u201cDurante a lei seca, a presen\u00e7a de mulheres nos bares deixou de ser um tabu\u201d, conta Iain Gately. Elas se mobilizaram para legalizar a pr\u00e1tica: em 1932, mais de 1 milh\u00e3o de americanas j\u00e1 tinham se associado \u00e0 <em>Women\u2019s Organization for National Proibition Reform<\/em> (algo como \u201cLiga das Mulheres Contra a Lei Seca\u201d). Adivinhe s\u00f3 o que aconteceu: no ano seguinte, a lei seca foi revogada.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-guerra.jpg\" rel=\"lightbox-4\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"667\" height=\"533\" src=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-guerra.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1709\" srcset=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-guerra.jpg 667w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/cerveja-guerra-350x280.jpg 350w\" sizes=\"auto, (max-width: 667px) 100vw, 667px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conflitos modernos<\/h2>\n\n\n\n<p>Na <strong>2\u00aa Guerra Mundial<\/strong>, o fluxo de \u00e1lcool refletia a a\u00e7\u00e3o no <em>front<\/em>. Assim que dominaram a Fran\u00e7a, os alem\u00e3es foram com sede ao pote \u2013 as vin\u00edcolas de <em>Borgonha<\/em>, de <em>Bordeaux<\/em> e de <em>Champagne<\/em> passaram ao controle dos nazistas. Na Inglaterra, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era dram\u00e1tica: <em>Hitler<\/em> bombardeou 6 grandes cervejarias (inclusive uma f\u00e1brica da famosa <em>Guinness<\/em>) e destruiu nada menos que 1 300 <em>pubs<\/em>. Quando o jogo come\u00e7ou a virar a favor dos Aliados, com dificuldades cada vez maiores para os nazistas, a cerveja alem\u00e3 paga o pato. Sua gradua\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica, que antes da guerra era em m\u00e9dia de 4,8%, cai para 1,2% em 1943. Em 1944, os alem\u00e3es<strong> param de fabricar cerveja<\/strong>. <span style=\"text-decoration: underline;\">E, no ano seguinte, perdem a guerra<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim do conflito, come\u00e7ava a <strong>Guerra Fria<\/strong> \u2013 em que, adivinhe s\u00f3, <span style=\"text-decoration: underline;\">a URSS tentou usar o \u00e1lcool como arma<\/span>. Os sovi\u00e9ticos criaram um comprimido que supostamente impedia a embriaguez. A ideia era que os espi\u00f5es russos tomassem esse rem\u00e9dio e fossem encher a cara com diplomatas americanos \u2013 que, completamente b\u00eabados, acabariam revelando segredos de Estado. N\u00e3o deu muito certo (as cobaias ficaram b\u00eabadas), e hoje em dia o rem\u00e9dio \u00e9 vendido como \u201catenuador de ressacas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"273\" src=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Ressaca-700x273.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1710\" srcset=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Ressaca-700x273.jpg 700w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Ressaca-350x137.jpg 350w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Ressaca-768x300.jpg 768w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Ressaca-1200x469.jpg 1200w, https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2012\/12\/Ressaca.jpg 1444w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Solu\u00e7\u00f5es para a ressaca<\/h2>\n\n\n\n<p>Falando em <strong>ressaca<\/strong>, a busca por uma cura definitiva chegou a duas propostas. Um composto qu\u00edmico chamado Ro15-4513, que foi criado na d\u00e9cada de 1970, e a <em>Alcohol Without Liquid<\/em> (AWOL), uma m\u00e1quina que destila e vaporiza bebidas alco\u00f3licas \u2013 a ideia \u00e9 que, se o \u00e1lcool for inalado, n\u00e3o passa pelo est\u00f4mago e n\u00e3o produz acetalde\u00eddo (subst\u00e2ncia que \u00e9 uma das principais causadoras da ressaca).<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso funcionou. O Ro15-4513 n\u00e3o est\u00e1 no mercado porque tem uma pequena \u201cinconveni\u00eancia\u201d: pode provocar convuls\u00f5es. E a AWOL j\u00e1 foi proibida em v\u00e1rios estados americanos porque \u00e9 considerada ineficaz e perigosa \u2013 como por via nasal a bebida \u00e9 absorvida mais facilmente pelo organismo e a pessoa n\u00e3o vomita quando est\u00e1 intoxicada, isso aumenta muito o risco de overdose de \u00e1lcool.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica<\/strong>. A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 beber menos, n\u00e3o beber, ou ent\u00e3o invejar o musaranho asi\u00e1tico: um bichinho que vive nas florestas da Mal\u00e1sia e, como comprovam pesquisas rec\u00e9m-publicadas, consegue enfiar o p\u00e9 na jaca sem nunca ficar b\u00eabado (seu \u00fanico alimento \u00e9 um n\u00e9ctar que cont\u00e9m 3,8% de \u00e1lcool). Ser\u00e1 que ele passaria no teste do baf\u00f4metro?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Curiosidades<\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>No s\u00e9culo 16, a Inglaterra tinha 16 mil bares, o equivalente a <strong>1 bar para cada 187 habitantes<\/strong>. Hoje, existe apenas 1 bar para cada 529 pessoas.<\/li><li>No mundo, cada pessoa consome em m\u00e9dia 5 litros de \u00e1lcool puro por ano, o equivalente a 125L de cerveja 45L de vinho 12,5L de vodca.<\/li><li>A Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia dos EUA, no s\u00e9culo 18, foi escrita num bar.<\/li><li>Os pa\u00edses onde mais se bebe s\u00e3o: Rep\u00fablica Checa (cerveja) Fran\u00e7a (vinho) Mold\u00e1via (vodca e destilados).<\/li><li>Hitler odiava bebida e queria acabar com os alco\u00f3latras. milhares deles foram esterilizados durante a 2\u00aa Guerra Mundial.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Beber, cair e levantar<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Das frutas ao \u00e1lcool s\u00f3lido, as v\u00e1rias maneiras de encher a cara atrav\u00e9s dos tempos<\/em><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Macacos \u2013 40 milh\u00f5es a.C.<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;H\u00e1 ind\u00edcios de que nossos antepassados se deliciavam comendo frutas \u201cestragadas\u201d \u2013 que, gra\u00e7as \u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o natural, tinham 5% de \u00e1lcool.<\/li><li><strong>Pr\u00e9-hist\u00f3ria \u2013 8000-4000 a.C.<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Pessoas do norte da China inventam uma bebida alco\u00f3lica feita de arroz. E os sum\u00e9rios, na Mesopot\u00e2mia, criam a cerveja \u2013 bem como uma deusa (<a href=\"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/ninkasi-a-deusa-da-cerveja.html\">Ninkasi<\/a>) para homenage\u00e1-la.<\/li><li><strong>Egito \u2013 3400-3100 a.C.<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Os eg\u00edpcios montam a primeira cervejaria do mundo. E o pov\u00e3o aproveita: os trabalhadores que fizeram as pir\u00e2mides de Giz\u00e9 bebiam todos os dias.<\/li><li><strong>Gr\u00e9cia \u2013 700 a.C.<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Os gregos bebem vinho dilu\u00eddo com \u00e1gua (a bebida pura \u00e9 considerada forte demais). Para curar a ressaca, a grande pedida \u00e9 comer repolho cozido.<\/li><li><strong>Imp\u00e9rio romano \u2013 270 a.C.<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Os soldados se fingem de bonzinhos e oferecem vinho para os povoados que encontram. Quando os inimigos est\u00e3o b\u00eabados, os romanos os matam.<\/li><li><strong>Hunos \u2013 446<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Liderados pelo tem\u00edvel \u00c1tila, invadem territ\u00f3rios romanos e destroem as vin\u00edcolas \u2013 sua bebida preferida \u00e9 o&nbsp;<em>kumis<\/em>, leite fermentado com 2% de \u00e1lcool.<\/li><li><strong>Isl\u00e2micos \u2013 620<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;A religi\u00e3o restringe o consumo de \u00e1lcool. Mas os cientistas do mundo isl\u00e2mico inventam o alambique, que \u00e9 usado at\u00e9 hoje para fazer bebidas destiladas.<\/li><li><strong>Vikings \u2013 850<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Espalham o terror na Europa \u2013 sempre bebendo uma cerveja escura, doce e bem forte, que tinha aproximadamente 9% de \u00e1lcool (o dobro da comum).<\/li><li><strong>Monges \u2013 1112<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;A Ordem dos&nbsp;<em>Cistercianos<\/em>&nbsp;monta uma vin\u00edcola em&nbsp;<em>Borgonha<\/em>, na Fran\u00e7a. D\u00e1 t\u00e3o certo que eles viram uma multinacional do vinho, com mais de 250 monast\u00e9rios.<\/li><li><strong>Mesoamericanos \u2013 s\u00e9c. 16<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Os astecas bebem o&nbsp;<em>pulque<\/em>, bebida produzida com folhas de agave \u2013 e s\u00f3 idosos podem tomar. Os incas preferem&nbsp;<em>cerveja de milho<\/em>, que d\u00e3o at\u00e9 a crian\u00e7as.<\/li><li><strong>Brasileiros \u2013 s\u00e9c. 17<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Os senhores de engenho come\u00e7am a exportar cacha\u00e7a \u2013 e os negros amotinados em quilombos aprendem a fabric\u00e1-la por conta pr\u00f3pria.<\/li><li><strong>Holandeses \u2013 s\u00e9c. 17<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Inventam o&nbsp;<em>gim<\/em>, um destilado de cereais com alt\u00edssimo teor alco\u00f3lico (mais de 45%). A novidade gera uma explos\u00e3o do alcoolismo na Europa.<\/li><li><strong>Africanos \u2013 s\u00e9c. 17\/18<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Entre 1680 e 1713, senhores tribais trocam 60 mil escravos por bebida alco\u00f3lica \u2013 cada escravo \u00e9 vendido por aproximadamente 86 litros de rum.<\/li><li><strong>Rev. Industrial \u2013 s\u00e9c. 18\/19<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Fabricada com novas tecnologias e em grande escala, a bebida fica mais barata. A cerveja \u00e9 produzida em enormes ton\u00e9is, com at\u00e9 500 mil litros de capacidade.<\/li><li><strong>Russos \u2013 s\u00e9c. 20<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Inventam uma p\u00edlula que permite beber sem ficar b\u00eabado. A ideia era us\u00e1-la na Guerra Fria (para que os espi\u00f5es russos levassem vantagem). N\u00e3o funcionou.<\/li><li><strong>Ingleses \u2013 2004<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Lan\u00e7am uma m\u00e1quina que permite inalar o \u00e1lcool em vez de beb\u00ea-lo, o que supostamente evita a ressaca e faz o bebum engordar menos.<\/li><li><strong>Americanos \u2013 2008<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;Desenvolvem um processo revolucion\u00e1rio, que permite fabricar gor\u00f3 s\u00f3lido \u2013 basta misturar com \u00e1gua e ele vira um drinque com 11% de \u00e1lcool.<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito antes da era do baf\u00f4metro, o \u00e1lcool era sagrado para a humanidade. 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