{"id":28,"date":"2006-10-26T02:55:18","date_gmt":"2006-10-26T05:55:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.tobeguarany.com\/wp\/sobre-a-ressaca\/"},"modified":"2006-10-26T02:55:18","modified_gmt":"2006-10-26T05:55:18","slug":"sobre-a-ressaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/sobre-a-ressaca.html","title":{"rendered":"Sobre a ressaca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em>Por <strong>Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Hoje existem <a href=\"bebedeiras-sem-tamanho-e-sem-ressaca\/\">p\u00edlulas milagrosas<\/a>, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque voc\u00ea as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Al\u00e9m de sa\u00fade era preciso coragem. As novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o conhecem ressaca, o que talvez explique a fal\u00eancia dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribui\u00e7\u00e3o divina existe e que nenhum prazer ficar\u00e1 sem castigo.<\/p>\n<p>Cada porre era um desafio ao c\u00e9u e \u00e0s suas feras. E elas vinham: N\u00e1usea, Azia, Dor de Cabe\u00e7a, D\u00favidas Existenciais &#8211; golfadas. Hoje, as bebedeiras n\u00e3o t\u00eam a mesma grandeza. S\u00e3o inconseq\u00fcentes, literalmente. N\u00e3o \u00e9 que eu fosse um b\u00eabado, mas me lembro de todos os s\u00e1bados de minha adolesc\u00eancia como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreserva\u00e7\u00e3o. A cuba-libre ganhava sempre. J\u00e1 dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.<\/p>\n<p>Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, &#8220;nunca mais&#8221; dura pouco. Ou ent\u00e3o o pr\u00f3ximo s\u00e1bado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. N\u00e3o sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas at\u00e9 hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu p\u00e9 encolhem.<\/p>\n<p>Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a opera\u00e7\u00e3o. \u00e0s vezes dissolvia as aspirinas num copo de \u00e1gua, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os m\u00e9todos variavam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_800\" aria-describedby=\"caption-attachment-800\" style=\"width: 288px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/ronsho\/450745352\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-800\" title=\"Absolut Vodka retorcida\" src=\"http:\/\/www.nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2006\/10\/absolut-vodka-retorcida-288x300.jpg\" alt=\"Foto: ronsho\" width=\"288\" height=\"300\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-800\" class=\"wp-caption-text\">Foto: ronsho<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por exemplo:<\/p>\n<p>Um c\u00e1lice de azeite antes de come\u00e7ar a beber &#8211; O estomago se revoltava, voc\u00ea ficava doente e desistia de beber.<\/p>\n<p>Tomar um copo de \u00e1gua entre cada copo de bebida &#8211; O dif\u00edcil era manter a regularidade. A certa altura, voc\u00ea come\u00e7ava a misturar a \u00e1gua com a bebida, e em propor\u00e7\u00f5es cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.<\/p>\n<p>Suco de tomate, lim\u00e3o, molho ingl\u00eas, sal e pimenta &#8211; Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.<\/p>\n<p>Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene &#8211; Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cart\u00f5es do sabonete Eucalol. Embebia-se um algod\u00e3o na testa e deitava-se com os p\u00e9s da ilha de P\u00e1scoa. Ficava-se im\u00f3vel durante tr\u00eas dias, no fim dos quais o tempo j\u00e1 teria curado a ressaca de qualquer maneira.<\/p>\n<p>Uma cerveja bem gelada na hora de acordar &#8211; Por alguma raz\u00e3o o m\u00e9todo mais popular.<\/p>\n<p>Canja &#8211; Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar. No entanto, muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos \u00e0s pressas antes do afogamento.<\/p>\n<p>Minha experi\u00eancia maior era com a cuba-libre, mas conhe\u00e7o outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Voc\u00ea sabia que o u\u00edsque escoc\u00eas que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com u\u00edsque falsificado era muito grande, voc\u00ea acordava se sentindo como uma harpa guarani e no dep\u00f3sito de instrumentos da boate Catito&#8217;s em Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pior ressaca era de gim.<\/p>\n<figure id=\"attachment_802\" aria-describedby=\"caption-attachment-802\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/helionorio\/2243395501\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-802\" title=\"Caf\u00e9 e ressaca\" src=\"http:\/\/www.nitsites.com.br\/confraria\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2006\/10\/ressaca-cafe-300x200.jpg\" alt=\"Foto: H\u00e9lio Norio\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-802\" class=\"wp-caption-text\">Foto: H\u00e9lio Norio<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, voc\u00ea n\u00e3o conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido t\u00e3o agu\u00e7ado que ouvia at\u00e9 os sinos da catedral de S\u00e3o Pedro, em Roma.<\/p>\n<p>Ressaca de martini doce: voc\u00ea ia se levantar da cama e escorria para o ch\u00e3o como \u00f3leo. Pior \u00e9 que voc\u00ea chamava a sua m\u00e3e, ela entrava correndo no quarto, escorregava em voc\u00ea e deslocava a bacia.<\/p>\n<p>Ressaca de vinho. Pior era a sede. Voc\u00ea se arrastava at\u00e9 a cozinha, tentava alcan\u00e7ar a garrafa de \u00e1gua e puxava todo o conte\u00fado da geladeira em cima de voc\u00ea. Era descoberto na manh\u00e3 seguinte imobilizado por hortigranjeiros e latic\u00ednios e mastigando um chuchu para alcan\u00e7ar a umidade. Era deserdado na hora.<\/p>\n<p>Ressaca de cacha\u00e7a. Voc\u00ea acordava sem saber como, de p\u00e9 num canto do quarto. Levava meia hora para chegar at\u00e9 a cama porque se esquecera como se caminhava: era p\u00e9 ante p\u00e9 ou m\u00e3o ante m\u00e3o? Quando conseguia se deitar, tinha a sensa\u00e7\u00e3o que deixara as duas orelhas e uma clav\u00edcula no canto.<\/p>\n<p>Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p>Ressaca de conhaque. Voc\u00ea acordava l\u00facido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu c\u00e9rebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Voc\u00ea sabia que era alucina\u00e7\u00e3o, mas por via das d\u00favidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e n\u00e3o acontece nada. No dia seguinte est\u00e3o saud\u00e1veis, bem-dispostas e fazem at\u00e9 piadas a respeito.<\/p>\n<p>De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se sa\u00fadam em sil\u00eancio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros ca\u00eddos e o nosso hero\u00edsmo an\u00f4nimo.<\/p>\n<p>Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.<\/p>\n<p>Um brinde.<\/p>\n<p>E um Engov.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque voc\u00ea as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. As novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o conhecem ressaca.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[34,72],"class_list":["post-28","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-humor","tag-cronica","tag-ressaca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nitsites.com.br\/confraria\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}